Todo dia ela faz tudo sempre igual
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Por Camila Rondon

Quarta-feira, Abril 23, 2008
Descobri que felicidade é silêncio. E só em momentos de tristeza é que consigo escrever. Mas tem que ser rápido porque logo me vejo feliz por voltar a escrever e tudo se perde. Então, resumindo, no dia que eu decidi ser feliz e, por notar minha fraqueza contra as infelicidades do mundo, eu me isolei. Notícias sobre infanticídios, escândalos políticos, besteiras ditas por presidentes, o meu e os dos outros – Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica que sempre precisará de ridículos tiranos?* - Enfim, tudo isso me abate de tal forma e me torna tão descrente na possibilidade de um futuro melhor que eu não quero mais ver. Mas, aí, eu olho para o quê? Não olho. E quem me vê se eu escolho não existir? Nem eu mesma. Então, felicidade é solidão. E aí já não é mais tão feliz assim, motivo desse texto.

Eu preciso de uma vez por todas aprender a existir apesar de tudo. Ser feliz apesar de tudo. Por que eu sou. Eu sou feliz. Mas eu perco força quando deixo esse sentimento sair de mim. Sabe o que eu preciso mesmo? De outras pessoas felizes. Você é feliz? Quer ser feliz? Sim, porque tem gente que não quer. Você acha que o mundo tem jeito? Melhor, você quer mudar o mundo? Me liga!


* Podres Poderes, música de Caetano Veloso, 1984. “Será, será que será que será que será? Será que essa minha estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?”

Camila Rondon


posted by Camila Rondon 11:18 AM
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Sexta-feira, Março 28, 2008
Miraculosamente a vida passou a ser tão boa de ser vivida que a necessidade de contá-la ficou em segundo plano. Mas ela voltou. Ou a trouxe pro presente. Presente? Não importa. Porque a sensação é mesmo a de planar num tempo imóvel e infinito. Linha do tempo comprimida numa única coisa indefinida. Como se não houvesse barreiras, eu ando por entre as pessoas e as coisas novas ou já vistas e as descubro sem despi-las. Numa conversa que não segue o caminho convencional da mensagem codificada no cérebro e saindo pela boca, entrando no outro ouvido e repetido processo. É uma troca de blocos cheios de signos por um meio mais direto. Tudo o que se precisa saber é sabido, mas não pesa ou ocupa espaço na memória. É assim. Eu não sei o que vai acontecer com a minha vida hoje, mas eu sei. E o fato de eu saber me relaxa e derruba as barreiras que impediriam o que vai acontecer de acontecer. Às vezes penso que o nome disso é fé, às vezes penso que é ilusão e às vezes penso que é melhor não pensar porque tudo o que vivi até aqui passou pela cabeça e não me agradou tanto quanto ao momento atual em que tudo se deslocou para o peito. A questão é que também o que eu já sabia se inverteu. Coisas como, por exemplo, tomar banho todos os dias. Não que eu não saiba que tomarei banho todos os dias, mas é que descobri que tomar banho hoje não é igual a tomar banho amanhã. Ou o banho da manhã igual ao da noite. Nem comer, nem respirar. Todo dia eu vivo diferente, mas são sempre as mesmas coisas. Todo dia eu espero pra saber como é que eu vou viver aquelas mesmas coisas naquele dia. Então todo dia eu acordo sem saber e todo dia eu sei. É essa ausência de rotina que compõe o que sabidamente vai acontecer na minha vida que anda deliciosamente boa de ser vivida. E agora está aí, devidamente descrita.

Camila Rondon



posted by Camila Rondon 2:25 PM
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Quinta-feira, Março 13, 2008
- E meus lábios vermelhos?
- Estão borrados no canto direito.
- E o vestido que você gosta, decotado e...?
- Atraiu olhares alheios.
- E o amor que trago no peito?
- Prefiro o conforto da luz acesa.

Camila Rondon


posted by Camila Rondon 11:05 AM
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Terça-feira, Maio 29, 2007
_ Oi. Como vai? Faz um ano que não nos vemos, né? Ano corrido aquele...
_ Devorado! Oi. Aquele ano atribulado. Era como se o corpo quisesse só fazer saudade pra depois sentir.
_ E você sente?
_ Às vezes. Às vezes ainda faço saudade. Esse meu eterno prepara-terreno.
_ Você sente medo?
_ Você não?
_ Às vezes. Às vezes não dá tempo porque sou o contrário de você.
_ E acha isso certo ou errado?
_ Acho que me complementa. Me beija?
_ Agora?

Camila Rondon



posted by Camila Rondon 2:13 PM
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Sexta-feira, Maio 11, 2007
Em espanhol, eu falava baixinho. Não sei se por vergonha de errar ou porque sempre me soou tão romântico. Só sei que falava baixinho e sorria muito. De olhos baixos, com jeitinho. Bastou pisar em Lima para ganhar doçura desconhecida.

Você gostava. Falava, em espanhol, ao meu ouvido - Desnudate! - e eu me reduzia. A ser só aquilo que desejava. O que de mim queria. A poesia.

Em espanhol, você, com força. Eu, sua moça.
Desnudate! Poesia.

Camila Rondon


posted by Camila Rondon 3:56 PM
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Segunda-feira, Março 26, 2007
''O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair''
Cazuza



É por essas que eu gosto de escrever. Para num dia gostoso como esse, torná-lo mais gostoso com você. É por isso que eu invento. E imagino que a tarde que passei lendo Clarice (Lispector) em voz alta tinha você como ouvinte. E a cada descoberta você ria, como se sentisse as cócegas que aquelas palavras me faziam. E numa determinada hora, hora de bolo com café e memórias da infância, as histórias que se desenhavam na minha cabeça eram histórias de você. De como passava suas tardes a inventar-me também. E que ria por imaginar-me lendo Clarice ao seu lado.

Isso tudo é tão engraçado. Porque posso agora mesmo imaginá-lo escrevendo num banquinho duro de madeira a contemplar o céu e o caderno como faço. Nesse mesmo instante.

Camila Rondon


posted by Camila Rondon 1:27 PM
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Segunda-feira, Março 19, 2007
'Bem típico de você, Camila. Conhece as pessoas, tira o que há de melhor delas e depois vai embora.'

Como é que ele sabe? Tá certo. É verdade. Mas como é que ele sabe? Um cara com quem troquei duas mensagens no Orkut. Elogiou minhas poesias, mandou as dele por e-mail, deu-me algumas boas dicas, belas críticas e pronto. Dois dias sem responder a sua quarta mensagem e ele me sai com essa? Bem típico de mim... Como é que ele sabe?!

'Vá a merda, Júlio! Você nem me conhece.'

Eu é que não daria o braço a torcer e admitir que ando mesmo em crise com isso. Porque tenho a impressão que muitas das pessoas na minha vida foram pessoas de ocasião. Eu só queria aprender-aprender e ele só queria ensinar-ensinar. Nos usamos. Ele quis aprender, eu não soube ensinar. Passou. Eu queria alguém com quem brigar, satisfazer meu desejo de controle. Ela não sabia o que fazer da vida e entregou-lhe à amiga. Nos usamos. Eu me toquei da minha fuga, ela decidiu querer por conta própria. Passou. Eu queria diversão na festa. Também o bonitão. Passou. Sim, uso, sou usada. Uma noite, uma vida. Isso é certo? É errado? Não sei. Sei que faço mesmo isso. Mas como ele sabe?

Confesso que doeu. Mas reagi. Sou arrogante a ponto de me achar cheia de defeitos, mas só capacitar a mim mesma a enumerá-los. Eu sou mesmo cheia de defeitos e nada faço com isso. Eu sou cheia de defeitos, entre eles, a inércia. Vejo o que está errado comigo, me angustio, mas não sei reagir. Só penso. Me pergunto o porquê e penso. Entre os defeitos, tem também o orgulho. Sou cheia de defeitos e orgulhosa. Orgulho-me por reconhecer meus defeitos e assumir-me imperfeita. E, por essa autocrítica, me dou o direito de não ouvir isso de mais ninguém. Eu sou uma criatura cheia de defeitos, que se acha o máximo por se assumir imperfeita e isso faz todo meu processo vazio.

'O que é isso, menina? Quem é afinal? Um bicho?'

Ah, Júlio, se eu soubesse lá ia ser escritora. Quer dizer, tentar ser escritora. Quer dizer, lá ia escrever (melhor assim dizer, vai). Escrevo porque não sei quem sou. Escrevo porque o que sei me desagrada. E escrevendo eu posso tudo, inclusive ser quem não sou. Escrevo porque assim me invento. Escrevo porque o que gosto de mim parece que só importa se gostarem também. Escrevo porque gosto de ter testemunha da minha tentativa de viver.

'Me deixa em paz, cara.'

Camila Rondon


E A MINHA AMIGA, SABENDO DISSO, FEZ A VERSÃO DELA, QUE PUBLICO AQUI PQ AMEI O PONTO DE VISTA BEM-HUMORADO AO CASO QUE ME DEIXOU EM CRISE. rs

Conto, que conto mas não vivi.
por Bixxcoito


Estava em casa. Fui direto checar meus e-mails e scraps no computador quando me deparei com um estranho em meu Orkut. Ele dizia que tinha gostado de minhas poesias e, por isso, gostaria de me adicionar. Achei a iniciativa interessante principalmente porque ele também era poeta.

Iniciamos uma conversa por e-mail. Ele demonstrou interesse em ensinar-me sua técnica de escrita. Tanta que passou literalmente na prática. Cada e-mail era um testamento, quase uma Bíblia. Ele encontrou vários evangelhos novos, mas que Jesus Cristo, para ter tanto assunto. O primeiro até li. O segundo, até a metade; o terceiro, a terça parte. O quarto avisei:

- Guri, vou analisar tudo o que você escreveu. Após a decodificação, acredito que em uma semana, responderei. Aguarde o meu contato.

A partir daí, o papo e a poesia virou um drama, tragicomédia, filme de terror. O cara acusou-me de ter preguiça mental. No entanto, da forma mais sutil possível:

- Pessoa, jamais pedi que tu escrevesses porra nenhuma pra mim. Nem esperaria páginas de ti. Não podes isso. Faltam condições, capacidade.

Faremos uma pausa no discurso. Vocês perceberam? É, ele escreve em português culto. Tenta ser culto. Quem sabe, até o é. Ou é paraense. Em Belém, os belenenses falam com sotaque de carioca misturado com português correto. Boa mistura. Uma coisa é fato: ele não tem inteligência emocional. Acho que por isso ele é praticamente um genérico de um cavalo. Ou paraense. No Pará, quando as pessoas querem xingar, usam Égua. Por exemplo:

- Égua, não acredito que fiz isso. Inspirei-me ao ter respondido o primeiro e-mail para o cara. Ou cavalo. Ou paraense.

Ele pode ser paraense porque Égua é a fêmea do cavalo. Será que virei Égua ao responder o chamado do animal?

Cheguei em animais porque após ter me chamado de burra e grosseira e justificar que não há mal nenhum em manter contato mais assíduo com pessoas, que gente normal faz isso, ele questionou:

- Quem és afinal? Um bixo?

Sim. Bicho com 'x'. Meu Deus! É. Ele é um animal. Um cavalo. Não pode ser um paraense. Paraenses usam o português correto. Ele é um cavalo assassino. Atropelou o coitado o português.

Daí, ele disse que eu devia ser mal quista, mal amada. Usou um 'Porra Meu'. Neste momento, percebi que ele é um cavalo, assassino e paulistano. 'Porra Meu' é paulistanos. Continuando, ele dizia que estava decepcionado. Já havia aprendido a lidar com limitações e falsidades. E levantou a questão:

- Tuas poesias são tuas mesmo? Porque agora dá pra suspeitar.

Eu também me fiz a mesma pergunta. As poesias que ele havia encaminhado também eram dele? Por que não vi nenhum erro de português e ele parecia ter inteligência, pelo menos emocional. Acho que ele contratou um revisor. Encerrou este protesto-testamento (eu já alertei vocês quanto a este aspecto, certo?) da seguinte forma: SUMA, POBREZA DE ESPÍRITO PEGA. Sim, com caixa alta. Eu, como uma boa jornalista, editaria a frase acrescentando um ponto de exclamação. SUMA! POBREZA DE ESPÍRITO PEGA. Não digo que a vírgula está errada por não ter certeza. Acho que procurarei o professor Pasquale Cipro Neto no Orkut para questionar.

Gente, ele só queria ser útil, ajudar. Era o que defendia. Ele alertava que o meu silêncio era parte da pobreza que eu não queria transmitir. Eu ainda questionei, perguntei se ele tinha enlouquecido. No entanto, cheguei à conclusão que o meu silêncio não era pobreza. Era preguiça de lidar com pessoas que não sabem o que querem, não sabe o que são e querem culpar a todos por não ter tido uma boa professora de português para tentar, ao menos, traduzir tantas frustrações e incapacidade em se relacionar em algo bonito. Acho que Friedrich Nietzsche consegui. Ele era quase um bicho, com 'ch', raivoso. Não queria ler outros filósofos só para não ser influenciado. Contudo, tinha ótimo português e bom senso. 'Não existem fatos, apenas interpretações', escreveu o filósofo. Tire agora a sua conclusão. A minha é que só adiciono amigos no Orkut.



posted by Camila Rondon 2:29 PM
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Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007
Acho que vou ligar dizendo que estou com dor de cabeça. Não posso. Tem evento hoje à noite. Droga! Será que ele respondeu o e-mail de ontem? Porque dói tanto meu coração? Sensação estranha de que escolhi um caminho sem volta. Calma que passa. Tudo passa. E se não passar? Passa. Que roupa eu vou usar hoje? E se o ministro for? Acho que vou de terninho preto. Não. Só uso essa roupa em evento da empresa. Vou de saia. Evento na sexta-feira merece saia. O que? Não, obrigada. Eu tomo café na empresa. Preciso urgente comprar umas roupas. Eu nunca tenho roupa. Tá horrível. Foda-se. Vai essa mesma. Ônibus do inferno. Sai da frente. Bom dia, gente. Será que tem resposta na caixa de e-mail? Será que ele viu que eu liguei? Alô. O ministro vai? Ai, meu Deus, vou conhecer o Gil. Ai, meu Deus. Se controla! Você é assessora de imprensa hoje. Você não é fã. Não é fã! Caros jornalistas, confirmamos a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil, no evento de hoje. Por favor, enviem nome completo e RG antes das 15h. Por questão de segurança, não haverá credenciamento no local. O cara não responde o e-mail. Desencanou de mim. Merda! Acho melhor desencanar também. Não quero. Eu gosto dele. Será que ela gosta dele como eu? E se estiverem felizes e eu aqui de besta vendo a vida passar. Azar o meu. Na próxima aprendo. Vai ter próxima? Vai ter próxima. Lógico que vai ter próxima, boba. Imagina. Ai, tomara que tenha próxima. Tô indo! Meu coração está em lágrimas. Olha o Gil! Boa noite, ministro. Oooi, jornalista. Meu coração está em festa.

Camila Rondon


posted by Camila Rondon 6:02 PM
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Quinta-feira, Abril 20, 2006

2006 é o ano do luto. É o ano em que chorarei as perdas. Serão muitas. Necessárias. Terei que chorar. Minguar. Sofrer. É o ano em que deixarei minhas dores. Abrirei espaço para as novas que virão. De 2006, não passarei. Eu. Esse lamento. Eu. Vazio. Perdido. Que não deseja por não saber a que. Estranhamento diante do outro. Pouca afinidade com o resto do mundo. Trancada em mim. Medrosa de tudo.

Esse ano, me despedirei de quem sou. Das minhas escolhas. Elas morrerão. Também as motivações. Quero, até dezembro, trocar minha moeda. Vou usar só de amor e perdão. Deixarei na mão de um contador as minhas ações. Não farei somas. Não mais listarei gastos. Não hei de fazer declaração. 365 dias acordando, escovando os dentes, tomando um quente e calmo banho ao som do melhor do meu momento, comendo pão com recheio, dirigindo ao sabor do vento, trabalhando cada dia de um jeito, agradando a quem eu quero sem ocasião.

Esse ano darei adeus a meu pai. Que tanto me atormentou. Que tanta culpa me fez sentir. Que me deixou tanta rejeição. Dele guardarei as fantasias infantis. As gravações caseiras e fotos de criança em que tudo é feliz. Me despedirei do desejo de ter sido ele que me ensinou a andar de bicicleta. De ter sido ele que me ensinou a nadar. E justo ele que tanto gosta de contas, não foi quem me ensinou a tabuada. Mas, por observação, por vê-lo viver (nunca aprendemos a conviver), aprendi a... a... tenho certeza que aprendi alguma coisa. Sempre há lições. No meu caso, por exemplos a não serem seguidos. Nos próximos anos, farei de mim uma construção, uma tentativa, de não ser os que foram. Isso, sim, aprendi com meu pai. Ele sempre me disse para aprender com o erro dos outros. Da sentença aprendi também que é mais fácil falar. Do filho mal amado ao pai nada amável pouco sobrou para a prática.

Em 2006, deixarei pra trás o ideal que guardava pra mim. Aquele corpo saudável, jovem e com vitalidade. O cabelo de corte e tingimento modernos. As visitas semanais ao salão de beleza. Unhas impecáveis. Dieta seguida à risca. Pele de pêssego. O terninho alinhado com cara de nova-iorquina. Profissional respeitada. Bem remunerada. Apaixonada pela função. Dona-de-casa exemplar. Flores na sala de estar. Geladeira cheia. Frutas, legumes e guloseimas. Mãe de família feliz, três meninos espertos e brincalhões, mas obedientes. Que dormem na hora determinada. Pra dar espaço aos pais românticos e ansiosos por serem homem e mulher. Num jantar a luz de velas, papo interessante, beijos e bom sexo.

Também aqui deixarei a esperança de estar viva quando o mundo mudar. De políticos corruptos aos cidadãos comuns. Porque quando eu pensei que talvez pudesse ser real, os Estados Unidos elegeram Bush. O Brasil viu o governo Lula se nivelar por baixo e tentar me convencer de que é normal porque sempre foi. Esse ano eu vou desistir. Não de fazer. De esperar por resultados. Quem sabe deixarei algo pros meus filhos. Faço desse um dos pontos de minha despedida enquanto vou pra casa de ônibus, a R$ 2 a passagem. Vou de pé. O idoso ao lado aperta o guarda-chuva molhado na minha bunda. Ele não pode sentar-se. Um jovem ocupa sua cadeira, come mexerica e atira a casca pela janela. No colo, o caderno de esportes. O jornal traz na capa: Brasileiro trabalha 5 meses e meio para pagar juro e imposto. Mas ele não vai saber disso.

Vamos o senhor, ele e eu entre outros tantos espremidos. Ou deprimidos? Como confundiu o famoso boxer em entrevista ao descrever a sensação pela perda do título. Espremidos e deprimidos, no nosso caso. Seguimos no solavanco do ônibus pelas ruas esburacadas da cidade mais rica do país, cujo prefeito prometeu que não renunciaria pela disputa ao governo do estado, mas não cumpriu. Vai o motorista assalariado, mal pago, fechando cruzamento. Sendo fechado por carros importados que também jogam lixo pela janela. Lixo sofisticado. Papel de bombom suíço.

Deprimida e espremida. Fecho-me em luto. Por 2006. Por tudo que daqui não passará. Por tudo que em mim nasceu em vão. Por não ver mais que vão. À minha limitação. Às novas dores, anseios e decepções.

Camila Rondon


posted by Camila Rondon 5:23 PM
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Quarta-feira, Abril 19, 2006
Odeio ler na cama durante o inverno. As mãos ficam frias. O queixo começa a tremer. Bate um vento na nuca. Não consigo puxar a coberta. A cachorra que dorme ao lado faz peso. Me esforço, dou um solavanco, o livro cai e a página é desmarcada. Merda! O edredom permanece no lugar. Nenhum centímetro mais pra cima. Falo com voz de susto: quem chegou? A poodle treinada pula da cama em direção à porta da frente para esperar pela visita. Ficamos o edredom e eu. Ponho mais força. Mal jeito. Da puxada. No pescoço. Me viro pra alongar. Pé, joelho e bunda se encostam em partes frias do lençol. Merda! Já estava tão quentinha... Respiro ofegante. Esfrego uma mão na outra. A cachorra se toca que participou de uma pegadinha, volta para cama e ajuda a esquentar o pé. Conforto restaurado. Cadê o livro? Está no chão do outro lado da cama. Merda! Apago a luz e tento dormir.

Agora imaginem que, ao fechar os olhos, tenho a idéia de lhes relatar esse tormento. Preciso ser rápida. Não quero deixá-la escapar. Merda! Merda! Merda!

Camila Rondon




posted by Camila Rondon 3:34 PM
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Sexta-feira, Março 10, 2006
Sempre gostei de escrever. Diários, desabafos, coisas engraçadas que via na rua e o que costumava chamar de textos-passatempo. É que tinha na escola matérias, na minha opinião, naquela época, tão sem propósito. Logaritmo. Por que e para que alguém usaria a fórmula matemática para achar o logaritmo de um número? Não via (ainda não vejo) aplicação para tal ferramenta em minha vida. Criei uma melhor: textos-passatempo. Sempre que me encontrava numa situação considerada, de minha parte, inútil, me punha a escrever. Às vezes fazia um texto inteiro sobre como detestava meu uniforme. O transtorno psicológico causado por aquela roupa azul que levou os alunos da escola a ganharem o apelido de smurfs da cidade. Outras vezes, sobre coisas mais profundas como a mágoa que carregava por uma briga com a minha mãe naquela manhã.

Numa aula de história, estava freneticamente escrevendo sobre meu pai. A professora percebeu que não poderia se tratar de cópia da lição no quadro-negro. Por mais revoltante que fosse ter nossos índios escravizados e depois exterminados, nada justificaria as lágrimas que escorriam no meu rosto. Tive meu caderno apreendido imediatamente. Silêncio total. Nenhuma advertência verbal ou escrita. Nada.

Fingi uma gripe no dia seguinte para não ir à aula com receio de que o caderno tivesse ido parar na diretoria. Aproveitei o dia livre para relembrar o que havia escrito. Queria ter certeza de que não tinha nenhum texto sobre a minha repulsa ao bigode da professora de geometria ou o cheiro de naftalina das camisas do professor de matemática. Ou pior, o quanto achava inconvenientes as piadas do filho da dona da escola.

Já recuperada do forte e quase verdadeiro mal-estar, voltei à escola. Logo no início da primeira aula, a secretária me chamou. Fui tremendo até a sala da diretoria. Ao sentar-me, vi que segurava meu caderno. Esperando ouvir a bronca, me calei. Para minha surpresa, a feroz diretora estava mansinha. Pediu que prestasse mais atenção às aulas e que deixasse para escrever no meu tempo livre. Mas que, por favor, não parasse de escrever porque eram muito bons meus textos. Tinha apenas uma observação. Disse que eu usava muitos pronomes possessivos, principalmente em primeira pessoa e que deveria atentar-me para corrigir isso.

Atendi ao pedido. Escrevo até hoje. Os melhores continuam sendo os textos-passatempo. Quanto ao uso do pronome possessivo, sinto muito, diretora, mas escrevo sobre o que vejo, ouço e aprendo. São referências pessoais. Nem delas, nem deles. Minhas.

Camila Rondon



posted by Camila Rondon 5:34 PM
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Quarta-feira, Setembro 28, 2005
- Você vai ser demitido!
Assim começou sua segunda-feira. Escorado na máquina de café, ouvindo as fofocas sobre o final de semana, o amigo dispara a última ao perceber que estavam sozinhos. A primeira reação foi entrar em choque. Pensou nas muitas parcelas do cartão de crédito e na recente dívida contraída na troca do carro. Fez contas e mais contas na cabeça. Com o dinheiro da indenização, acertaria suas contas e ainda lhe restaria a poupança para sustentá-lo até arranjar outro emprego. Poderia aproveitar o período sem trabalho para finalmente colocar em prática o grande sonho de ser escritor. Há tempos ensaiava um romance. Faltava tempo para se dedicar. E esse tempo veio. Montou um cronograma. Acordaria cedo, faria a tão sonhada caminhada diária. Um bom banho depois, tomaria café-da-manhã sem pressa, lendo o jornal, inclusive as colunas sociais e as críticas de cinema. Com uns trabalhos de freelancer somados à poupança, o nível de vida ficaria garantido. E nem se importaria em não jantar todos os finais de semana no restaurante mais badalado da cidade se conseguisse achar o conflito principal do seu livro. Até a hora do almoço, trabalho. Depois do almoço, livro. Em três meses, termina. Mostra pra editoras. Consegue a publicação. Vira best-seller. Ganha fãs em todo o mundo. Fica reconhecido como o homem que vendeu mais que o Paulo Coelho e ... Toca o telefone.
- Cara, me enganei. A demissão será em outro departamento.
A primeira reação foi entrar em choque. Pensa no trabalho acumulado. Começa a segunda-feira como sempre faz.




posted by Camila Rondon 4:56 PM
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Sexta-feira, Setembro 16, 2005
Aquela semana foi particularmente difícil. Não saiu do escritório antes de completar 12 horas de trabalho intenso. Exausta, como o resto da equipe, se arrasta até a sala do chefe. Entre os mil assuntos discutidos, o diretor se atém ao problema de cumprimento de horários. A revolta foi geral.
- Como assim? Indignou-se um.
- Que absurdo! Reclamou o outro já de pé. Nós trabalhamos muito essa semana. Defendeu.
- É que o horário de trabalho de vocês previsto em contrato é das 9h às 18h. Explicou o chefe.
E, nisso se entregou o outro:
- Se a gente chega atrasado são, no máximo, 30 minutos. E a gente fica aqui até tarde.
- Pois é esse o problema. Eu, como chefe, devo cumprir as regras do prédio. Não posso permitir que vocês saiam depois das 18h.
- Mas nós estamos trabalhando.
- Depois das 18h, não pode.
- Chefe, pelo amor de Deus, a gente recebe um monte de solicitação no final do dia que acaba preso aqui até mais tarde. Não tem nada que você possa fazer para deixar a gente sair mais tarde?
- Bom, se é assim, posso tentar negociar uns 30 minutos. Mas, depois de 18h30, ninguém pode ficar. Tem que cumprir a regra.
- Ah. Isso é muito pouco. Não pode ser pelo menos uma hora. Pelo menos até às 19h, se não, não dá.
- De jeito nenhum. Se der 18h30 e ainda tiver trabalho por fazer, deixa pra trás. Não quero ninguém saindo tarde daqui. Regras são regras. Tem que cumprir. E chega de discussão. Fechamos em 18h30 e pronto. Ou vocês preferem que eu volte ao horário das 18h?
- Não!
- Então, está decidido. 18h30, todo mundo tem que ir embora.
A equipe sai da sala arrasada.



posted by Camila Rondon 2:38 PM
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Quarta-feira, Agosto 31, 2005
Caixa postal do celular lotada. Fico aflita. Há dias espero retorno sobre uma proposta de trabalho em que joguei alto e pode mudar minha vida. Bloco de anotações e caneta na mão:
- Você acessou a caixa postal. Digite sua senha. Tutututu. Você tem cinco mensagens de voz. Para ouvir, tecle um. Tu.
- Mensagem recebida hoje, às nove horas e quatorze minutos. Oi, Cá. Eu liguei para falar que estou achando o Rex meio triste ultimamente. Ele nem olhou na minha cara ontem. Não quis brincar. Nem levantou pra pegar o biscoito que eu comprei pra ele. Será que ele está doente? Você acha que pode ser a troca da ração? Dá uma olhada nele quando chegar em casa? Acho que a gente vai ter que levá-lo ao veterinário. Lembra que ele ficou assim quando estava com verme? Depois eu te ligo pra conversar. Um beijo.
Para ouvir de novo, tecle três. Para guardar, tecle quatro. Para apagar, tecle seis. Tu.
- Mensagem recebida hoje, às dez horas e sete minutos. Bom dia, senhora Camila. Aqui é do consultório da Dra. Ana Paula e eu tô te ligando pra tá confirmando a consulta com a Dra. Ana Paula aqui no consultório, na sexta-feira, às dezoito horas. Queria tá lembrando a senhora que a senhora vai precisar de roupa de ginástica pra fazer o exame de resistência que a senhora marcou.
Para ouvir de novo, tecle três. Para guardar, tecle quatro. Para apagar, tecle seis. Tu.
- Mensagem recebida hoje, às dez horas e dezoito minutos. Oi, Cá. Mamãe. Eu estou aqui na costureira. Vim buscar a blusa que você pediu. Só que tem um problema. Você me disse que queria três botões e aqui tem dois. Queria ver isso com você para pedir pra mulher corrigir mas você não atende o celular e eu quero ir embora porque ainda tenho que ir pra casa me arrumar pro almoço com a Cleia. Depois não vou querer voltar aqui para arrumar a blusa de novo. Bom, vou embora. Se tiver algum problema, me liga. Não esquece também de marcar a consulta com a Dra. Ana Paula. Você não pode largar o tratamento no meio. Se cuida. Beijinho.
Para ouvir de novo, tecle três. Para guardar, tecle quatro. Para apagar, tecle seis. Tu.
- Mensagem recebida hoje, às onze horas e cinqüenta e dois minutos. Oi, amor. Sou eu. Liguei pra avisar que eu vou lá pra casa do Fred agora. A gente vai almoçar e depois vai ensaiar pro show de sábado. Parece que a dona do bar quer que toque mais blues e eu preciso lembrar um monte de coisas. Faz tempo que eu não toco blues, né? Depois eu acho que eu vou pra casa. Mas eu te ligo para saber se você tem aula de teatro hoje. É hoje que você tem aula de teatro, né? Bom, a gente se fala depois. Um beijo, meu bem.
Para ouvir de novo, tecle três. Para guardar, tecle quatro. Para apagar, tecle seis. Tu.
- Mensagem recebida hoje, às quinze horas e trinta e três minutos. Oi, Camila, é a Dora. Liguei pra avisar que te ligou aqui no escritório uma jornalista que vai fazer uma matéria sobre a empresa. Ela me pediu todos os dados. Número de funcionários, lucro anual, previsão de crescimento, linha de produtos, preços, próximos lançamentos, história da marca, investimentos em responsabilidade social, abertura de lojas no México. Tudo. Acho que vai ser uma matéria super legal. Eu já passei tudo pra ela, tá? Não se preocupe. Depois te conto todos detalhes. Té amanhã.
Para ouvir de novo, tecle três. Para guardar, tecle quatro. Para apagar, tecle seis. Tu. Você não tem mais mensagens de voz. Para encerrar, aperta estrela ou desligue.
Desligo frustradíssima mas nem dá tempo porque logo toca o celular.
- Camila. Finalmente. Liguei pra você o dia todo mas dava na caixa postal e não tinha espaço pra deixar recado. Eles querem fazer uma contra-proposta hoje às seis. Vem correndo pra cá.
Antes de sair como uma louca, acesso novamente a minha caixa postal e faço uma alteração na mensagem. Gravo: Você ligou para Camila Rondon. Por favor, deixe o seu recado e seja objetivo. Obrigada.




posted by Camila Rondon 5:36 PM
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