Todo dia ela faz tudo sempre igual
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Por Camila Rondon

Segunda-feira, Março 26, 2007
''O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair''
Cazuza



É por essas que eu gosto de escrever. Para num dia gostoso como esse, torná-lo mais gostoso com você. É por isso que eu invento. E imagino que a tarde que passei lendo Clarice (Lispector) em voz alta tinha você como ouvinte. E a cada descoberta você ria, como se sentisse as cócegas que aquelas palavras me faziam. E numa determinada hora, hora de bolo com café e memórias da infância, as histórias que se desenhavam na minha cabeça eram histórias de você. De como passava suas tardes a inventar-me também. E que ria por imaginar-me lendo Clarice ao seu lado.

Isso tudo é tão engraçado. Porque posso agora mesmo imaginá-lo escrevendo num banquinho duro de madeira a contemplar o céu e o caderno como faço. Nesse mesmo instante.

Camila Rondon


posted by Camila Rondon 1:27 PM
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Comentários:
Segunda-feira, Março 19, 2007
'Bem típico de você, Camila. Conhece as pessoas, tira o que há de melhor delas e depois vai embora.'

Como é que ele sabe? Tá certo. É verdade. Mas como é que ele sabe? Um cara com quem troquei duas mensagens no Orkut. Elogiou minhas poesias, mandou as dele por e-mail, deu-me algumas boas dicas, belas críticas e pronto. Dois dias sem responder a sua quarta mensagem e ele me sai com essa? Bem típico de mim... Como é que ele sabe?!

'Vá a merda, Júlio! Você nem me conhece.'

Eu é que não daria o braço a torcer e admitir que ando mesmo em crise com isso. Porque tenho a impressão que muitas das pessoas na minha vida foram pessoas de ocasião. Eu só queria aprender-aprender e ele só queria ensinar-ensinar. Nos usamos. Ele quis aprender, eu não soube ensinar. Passou. Eu queria alguém com quem brigar, satisfazer meu desejo de controle. Ela não sabia o que fazer da vida e entregou-lhe à amiga. Nos usamos. Eu me toquei da minha fuga, ela decidiu querer por conta própria. Passou. Eu queria diversão na festa. Também o bonitão. Passou. Sim, uso, sou usada. Uma noite, uma vida. Isso é certo? É errado? Não sei. Sei que faço mesmo isso. Mas como ele sabe?

Confesso que doeu. Mas reagi. Sou arrogante a ponto de me achar cheia de defeitos, mas só capacitar a mim mesma a enumerá-los. Eu sou mesmo cheia de defeitos e nada faço com isso. Eu sou cheia de defeitos, entre eles, a inércia. Vejo o que está errado comigo, me angustio, mas não sei reagir. Só penso. Me pergunto o porquê e penso. Entre os defeitos, tem também o orgulho. Sou cheia de defeitos e orgulhosa. Orgulho-me por reconhecer meus defeitos e assumir-me imperfeita. E, por essa autocrítica, me dou o direito de não ouvir isso de mais ninguém. Eu sou uma criatura cheia de defeitos, que se acha o máximo por se assumir imperfeita e isso faz todo meu processo vazio.

'O que é isso, menina? Quem é afinal? Um bicho?'

Ah, Júlio, se eu soubesse lá ia ser escritora. Quer dizer, tentar ser escritora. Quer dizer, lá ia escrever (melhor assim dizer, vai). Escrevo porque não sei quem sou. Escrevo porque o que sei me desagrada. E escrevendo eu posso tudo, inclusive ser quem não sou. Escrevo porque assim me invento. Escrevo porque o que gosto de mim parece que só importa se gostarem também. Escrevo porque gosto de ter testemunha da minha tentativa de viver.

'Me deixa em paz, cara.'

Camila Rondon


E A MINHA AMIGA, SABENDO DISSO, FEZ A VERSÃO DELA, QUE PUBLICO AQUI PQ AMEI O PONTO DE VISTA BEM-HUMORADO AO CASO QUE ME DEIXOU EM CRISE. rs

Conto, que conto mas não vivi.
por Bixxcoito


Estava em casa. Fui direto checar meus e-mails e scraps no computador quando me deparei com um estranho em meu Orkut. Ele dizia que tinha gostado de minhas poesias e, por isso, gostaria de me adicionar. Achei a iniciativa interessante principalmente porque ele também era poeta.

Iniciamos uma conversa por e-mail. Ele demonstrou interesse em ensinar-me sua técnica de escrita. Tanta que passou literalmente na prática. Cada e-mail era um testamento, quase uma Bíblia. Ele encontrou vários evangelhos novos, mas que Jesus Cristo, para ter tanto assunto. O primeiro até li. O segundo, até a metade; o terceiro, a terça parte. O quarto avisei:

- Guri, vou analisar tudo o que você escreveu. Após a decodificação, acredito que em uma semana, responderei. Aguarde o meu contato.

A partir daí, o papo e a poesia virou um drama, tragicomédia, filme de terror. O cara acusou-me de ter preguiça mental. No entanto, da forma mais sutil possível:

- Pessoa, jamais pedi que tu escrevesses porra nenhuma pra mim. Nem esperaria páginas de ti. Não podes isso. Faltam condições, capacidade.

Faremos uma pausa no discurso. Vocês perceberam? É, ele escreve em português culto. Tenta ser culto. Quem sabe, até o é. Ou é paraense. Em Belém, os belenenses falam com sotaque de carioca misturado com português correto. Boa mistura. Uma coisa é fato: ele não tem inteligência emocional. Acho que por isso ele é praticamente um genérico de um cavalo. Ou paraense. No Pará, quando as pessoas querem xingar, usam Égua. Por exemplo:

- Égua, não acredito que fiz isso. Inspirei-me ao ter respondido o primeiro e-mail para o cara. Ou cavalo. Ou paraense.

Ele pode ser paraense porque Égua é a fêmea do cavalo. Será que virei Égua ao responder o chamado do animal?

Cheguei em animais porque após ter me chamado de burra e grosseira e justificar que não há mal nenhum em manter contato mais assíduo com pessoas, que gente normal faz isso, ele questionou:

- Quem és afinal? Um bixo?

Sim. Bicho com 'x'. Meu Deus! É. Ele é um animal. Um cavalo. Não pode ser um paraense. Paraenses usam o português correto. Ele é um cavalo assassino. Atropelou o coitado o português.

Daí, ele disse que eu devia ser mal quista, mal amada. Usou um 'Porra Meu'. Neste momento, percebi que ele é um cavalo, assassino e paulistano. 'Porra Meu' é paulistanos. Continuando, ele dizia que estava decepcionado. Já havia aprendido a lidar com limitações e falsidades. E levantou a questão:

- Tuas poesias são tuas mesmo? Porque agora dá pra suspeitar.

Eu também me fiz a mesma pergunta. As poesias que ele havia encaminhado também eram dele? Por que não vi nenhum erro de português e ele parecia ter inteligência, pelo menos emocional. Acho que ele contratou um revisor. Encerrou este protesto-testamento (eu já alertei vocês quanto a este aspecto, certo?) da seguinte forma: SUMA, POBREZA DE ESPÍRITO PEGA. Sim, com caixa alta. Eu, como uma boa jornalista, editaria a frase acrescentando um ponto de exclamação. SUMA! POBREZA DE ESPÍRITO PEGA. Não digo que a vírgula está errada por não ter certeza. Acho que procurarei o professor Pasquale Cipro Neto no Orkut para questionar.

Gente, ele só queria ser útil, ajudar. Era o que defendia. Ele alertava que o meu silêncio era parte da pobreza que eu não queria transmitir. Eu ainda questionei, perguntei se ele tinha enlouquecido. No entanto, cheguei à conclusão que o meu silêncio não era pobreza. Era preguiça de lidar com pessoas que não sabem o que querem, não sabe o que são e querem culpar a todos por não ter tido uma boa professora de português para tentar, ao menos, traduzir tantas frustrações e incapacidade em se relacionar em algo bonito. Acho que Friedrich Nietzsche consegui. Ele era quase um bicho, com 'ch', raivoso. Não queria ler outros filósofos só para não ser influenciado. Contudo, tinha ótimo português e bom senso. 'Não existem fatos, apenas interpretações', escreveu o filósofo. Tire agora a sua conclusão. A minha é que só adiciono amigos no Orkut.



posted by Camila Rondon 2:29 PM
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