2006 é o ano do luto. É o ano em que chorarei as perdas. Serão muitas. Necessárias. Terei que chorar. Minguar. Sofrer. É o ano em que deixarei minhas dores. Abrirei espaço para as novas que virão. De 2006, não passarei. Eu. Esse lamento. Eu. Vazio. Perdido. Que não deseja por não saber a que. Estranhamento diante do outro. Pouca afinidade com o resto do mundo. Trancada em mim. Medrosa de tudo. Esse ano, me despedirei de quem sou. Das minhas escolhas. Elas morrerão. Também as motivações. Quero, até dezembro, trocar minha moeda. Vou usar só de amor e perdão. Deixarei na mão de um contador as minhas ações. Não farei somas. Não mais listarei gastos. Não hei de fazer declaração. 365 dias acordando, escovando os dentes, tomando um quente e calmo banho ao som do melhor do meu momento, comendo pão com recheio, dirigindo ao sabor do vento, trabalhando cada dia de um jeito, agradando a quem eu quero sem ocasião. Esse ano darei adeus a meu pai. Que tanto me atormentou. Que tanta culpa me fez sentir. Que me deixou tanta rejeição. Dele guardarei as fantasias infantis. As gravações caseiras e fotos de criança em que tudo é feliz. Me despedirei do desejo de ter sido ele que me ensinou a andar de bicicleta. De ter sido ele que me ensinou a nadar. E justo ele que tanto gosta de contas, não foi quem me ensinou a tabuada. Mas, por observação, por vê-lo viver (nunca aprendemos a conviver), aprendi a... a... tenho certeza que aprendi alguma coisa. Sempre há lições. No meu caso, por exemplos a não serem seguidos. Nos próximos anos, farei de mim uma construção, uma tentativa, de não ser os que foram. Isso, sim, aprendi com meu pai. Ele sempre me disse para aprender com o erro dos outros. Da sentença aprendi também que é mais fácil falar. Do filho mal amado ao pai nada amável pouco sobrou para a prática. Em 2006, deixarei pra trás o ideal que guardava pra mim. Aquele corpo saudável, jovem e com vitalidade. O cabelo de corte e tingimento modernos. As visitas semanais ao salão de beleza. Unhas impecáveis. Dieta seguida à risca. Pele de pêssego. O terninho alinhado com cara de nova-iorquina. Profissional respeitada. Bem remunerada. Apaixonada pela função. Dona-de-casa exemplar. Flores na sala de estar. Geladeira cheia. Frutas, legumes e guloseimas. Mãe de família feliz, três meninos espertos e brincalhões, mas obedientes. Que dormem na hora determinada. Pra dar espaço aos pais românticos e ansiosos por serem homem e mulher. Num jantar a luz de velas, papo interessante, beijos e bom sexo. Também aqui deixarei a esperança de estar viva quando o mundo mudar. De políticos corruptos aos cidadãos comuns. Porque quando eu pensei que talvez pudesse ser real, os Estados Unidos elegeram Bush. O Brasil viu o governo Lula se nivelar por baixo e tentar me convencer de que é normal porque sempre foi. Esse ano eu vou desistir. Não de fazer. De esperar por resultados. Quem sabe deixarei algo pros meus filhos. Faço desse um dos pontos de minha despedida enquanto vou pra casa de ônibus, a R$ 2 a passagem. Vou de pé. O idoso ao lado aperta o guarda-chuva molhado na minha bunda. Ele não pode sentar-se. Um jovem ocupa sua cadeira, come mexerica e atira a casca pela janela. No colo, o caderno de esportes. O jornal traz na capa: Brasileiro trabalha 5 meses e meio para pagar juro e imposto. Mas ele não vai saber disso. Vamos o senhor, ele e eu entre outros tantos espremidos. Ou deprimidos? Como confundiu o famoso boxer em entrevista ao descrever a sensação pela perda do título. Espremidos e deprimidos, no nosso caso. Seguimos no solavanco do ônibus pelas ruas esburacadas da cidade mais rica do país, cujo prefeito prometeu que não renunciaria pela disputa ao governo do estado, mas não cumpriu. Vai o motorista assalariado, mal pago, fechando cruzamento. Sendo fechado por carros importados que também jogam lixo pela janela. Lixo sofisticado. Papel de bombom suíço. Deprimida e espremida. Fecho-me em luto. Por 2006. Por tudo que daqui não passará. Por tudo que em mim nasceu em vão. Por não ver mais que vão. À minha limitação. Às novas dores, anseios e decepções. Camila Rondon posted by Camila Rondon 5:23 PM . . . Comentários:
Odeio ler na cama durante o inverno. As mãos ficam frias. O queixo começa a tremer. Bate um vento na nuca. Não consigo puxar a coberta. A cachorra que dorme ao lado faz peso. Me esforço, dou um solavanco, o livro cai e a página é desmarcada. Merda! O edredom permanece no lugar. Nenhum centímetro mais pra cima. Falo com voz de susto: quem chegou? A poodle treinada pula da cama em direção à porta da frente para esperar pela visita. Ficamos o edredom e eu. Ponho mais força. Mal jeito. Da puxada. No pescoço. Me viro pra alongar. Pé, joelho e bunda se encostam em partes frias do lençol. Merda! Já estava tão quentinha... Respiro ofegante. Esfrego uma mão na outra. A cachorra se toca que participou de uma pegadinha, volta para cama e ajuda a esquentar o pé. Conforto restaurado. Cadê o livro? Está no chão do outro lado da cama. Merda! Apago a luz e tento dormir. Agora imaginem que, ao fechar os olhos, tenho a idéia de lhes relatar esse tormento. Preciso ser rápida. Não quero deixá-la escapar. Merda! Merda! Merda! Camila Rondon posted by Camila Rondon 3:34 PM . . . Comentários: