Todo dia ela faz tudo sempre igual
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Por Camila Rondon

Sexta-feira, Março 10, 2006
Sempre gostei de escrever. Diários, desabafos, coisas engraçadas que via na rua e o que costumava chamar de textos-passatempo. É que tinha na escola matérias, na minha opinião, naquela época, tão sem propósito. Logaritmo. Por que e para que alguém usaria a fórmula matemática para achar o logaritmo de um número? Não via (ainda não vejo) aplicação para tal ferramenta em minha vida. Criei uma melhor: textos-passatempo. Sempre que me encontrava numa situação considerada, de minha parte, inútil, me punha a escrever. Às vezes fazia um texto inteiro sobre como detestava meu uniforme. O transtorno psicológico causado por aquela roupa azul que levou os alunos da escola a ganharem o apelido de smurfs da cidade. Outras vezes, sobre coisas mais profundas como a mágoa que carregava por uma briga com a minha mãe naquela manhã.

Numa aula de história, estava freneticamente escrevendo sobre meu pai. A professora percebeu que não poderia se tratar de cópia da lição no quadro-negro. Por mais revoltante que fosse ter nossos índios escravizados e depois exterminados, nada justificaria as lágrimas que escorriam no meu rosto. Tive meu caderno apreendido imediatamente. Silêncio total. Nenhuma advertência verbal ou escrita. Nada.

Fingi uma gripe no dia seguinte para não ir à aula com receio de que o caderno tivesse ido parar na diretoria. Aproveitei o dia livre para relembrar o que havia escrito. Queria ter certeza de que não tinha nenhum texto sobre a minha repulsa ao bigode da professora de geometria ou o cheiro de naftalina das camisas do professor de matemática. Ou pior, o quanto achava inconvenientes as piadas do filho da dona da escola.

Já recuperada do forte e quase verdadeiro mal-estar, voltei à escola. Logo no início da primeira aula, a secretária me chamou. Fui tremendo até a sala da diretoria. Ao sentar-me, vi que segurava meu caderno. Esperando ouvir a bronca, me calei. Para minha surpresa, a feroz diretora estava mansinha. Pediu que prestasse mais atenção às aulas e que deixasse para escrever no meu tempo livre. Mas que, por favor, não parasse de escrever porque eram muito bons meus textos. Tinha apenas uma observação. Disse que eu usava muitos pronomes possessivos, principalmente em primeira pessoa e que deveria atentar-me para corrigir isso.

Atendi ao pedido. Escrevo até hoje. Os melhores continuam sendo os textos-passatempo. Quanto ao uso do pronome possessivo, sinto muito, diretora, mas escrevo sobre o que vejo, ouço e aprendo. São referências pessoais. Nem delas, nem deles. Minhas.

Camila Rondon



posted by Camila Rondon 5:34 PM
. . .
Comentários:


. . .