Todo dia ela faz tudo sempre igual
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Por Camila Rondon

Quarta-feira, Setembro 28, 2005
- Você vai ser demitido!
Assim começou sua segunda-feira. Escorado na máquina de café, ouvindo as fofocas sobre o final de semana, o amigo dispara a última ao perceber que estavam sozinhos. A primeira reação foi entrar em choque. Pensou nas muitas parcelas do cartão de crédito e na recente dívida contraída na troca do carro. Fez contas e mais contas na cabeça. Com o dinheiro da indenização, acertaria suas contas e ainda lhe restaria a poupança para sustentá-lo até arranjar outro emprego. Poderia aproveitar o período sem trabalho para finalmente colocar em prática o grande sonho de ser escritor. Há tempos ensaiava um romance. Faltava tempo para se dedicar. E esse tempo veio. Montou um cronograma. Acordaria cedo, faria a tão sonhada caminhada diária. Um bom banho depois, tomaria café-da-manhã sem pressa, lendo o jornal, inclusive as colunas sociais e as críticas de cinema. Com uns trabalhos de freelancer somados à poupança, o nível de vida ficaria garantido. E nem se importaria em não jantar todos os finais de semana no restaurante mais badalado da cidade se conseguisse achar o conflito principal do seu livro. Até a hora do almoço, trabalho. Depois do almoço, livro. Em três meses, termina. Mostra pra editoras. Consegue a publicação. Vira best-seller. Ganha fãs em todo o mundo. Fica reconhecido como o homem que vendeu mais que o Paulo Coelho e ... Toca o telefone.
- Cara, me enganei. A demissão será em outro departamento.
A primeira reação foi entrar em choque. Pensa no trabalho acumulado. Começa a segunda-feira como sempre faz.




posted by Camila Rondon 4:56 PM
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Sexta-feira, Setembro 16, 2005
Aquela semana foi particularmente difícil. Não saiu do escritório antes de completar 12 horas de trabalho intenso. Exausta, como o resto da equipe, se arrasta até a sala do chefe. Entre os mil assuntos discutidos, o diretor se atém ao problema de cumprimento de horários. A revolta foi geral.
- Como assim? Indignou-se um.
- Que absurdo! Reclamou o outro já de pé. Nós trabalhamos muito essa semana. Defendeu.
- É que o horário de trabalho de vocês previsto em contrato é das 9h às 18h. Explicou o chefe.
E, nisso se entregou o outro:
- Se a gente chega atrasado são, no máximo, 30 minutos. E a gente fica aqui até tarde.
- Pois é esse o problema. Eu, como chefe, devo cumprir as regras do prédio. Não posso permitir que vocês saiam depois das 18h.
- Mas nós estamos trabalhando.
- Depois das 18h, não pode.
- Chefe, pelo amor de Deus, a gente recebe um monte de solicitação no final do dia que acaba preso aqui até mais tarde. Não tem nada que você possa fazer para deixar a gente sair mais tarde?
- Bom, se é assim, posso tentar negociar uns 30 minutos. Mas, depois de 18h30, ninguém pode ficar. Tem que cumprir a regra.
- Ah. Isso é muito pouco. Não pode ser pelo menos uma hora. Pelo menos até às 19h, se não, não dá.
- De jeito nenhum. Se der 18h30 e ainda tiver trabalho por fazer, deixa pra trás. Não quero ninguém saindo tarde daqui. Regras são regras. Tem que cumprir. E chega de discussão. Fechamos em 18h30 e pronto. Ou vocês preferem que eu volte ao horário das 18h?
- Não!
- Então, está decidido. 18h30, todo mundo tem que ir embora.
A equipe sai da sala arrasada.



posted by Camila Rondon 2:38 PM
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